tátil

recife, 09 de maio de 2026

se eu (  ) faço poemas
é porque escrever veio antes
de tudo, inclusive de mim
se eu (  ) leio poemas
é porque a leitura
me aliviava a infância

se eu pareço sensível
delicada e manhosa
é porque sou
um muro alto
das grandes cidades
invisíveis

            precisei
                    preciso
                          precisarei

resistir
com  muito mais           ::força::
a tudo aquilo e
a todos aqueles
que me querem
inóspita e rígida

eu não sei mais
nem tem como
(  ) explicar 
por mensagem:
eu sou tão pequena
quanto uma piaba
um grãozinho
ou uma concha

quase perco todos os dias

é uma pedra
jogada para cima
de onde se tenta
livrar cair em si

os meninos adormecem
eu também quero adormecer

mamãe, me leve
de volta para a casa
papai, me busque
ao meio dia

nenhum de nós
vencerá esta guerra
perdida

embora tenhamos tentado

orquidário dos afetos

não há uma missão
uma corrida
pra gente ser amada

mas se tivesse 
você poderia dar
por encerrada 
a missão de ser amada
por mim

que nem grande coisa
sou: apenas
um animal 
faminto no deserto

eis o seu chão
úmido ou árido: firme
terra de redemoinhos
em dias abafados
e pastagem à vontade

eis uma estação
pra você chamar 
de sua

primavera da minha floração
verão da minha quentura
outono dos meus dias curtos
inverno das minhas noites longas

não quero nunca mais
pastar onde não seja verde
então me deixe habitar no teu nome

bethânia no uber

estar apaixonada
não me acontece
há muito tempo
estar apaixonada
por você, então
nunca me aconteceu
e desde já lamento
por ter deixado 
para tão tarde
devorar essa fruta
maduríssima
caída agora mesmo
no meu quintal
como não me acontece
há muito tempo

fogo do fogo

espera um pouco
e navega esse barquinho
corpo sobre o medo

porque quando for a hora
esse fruto vai se derreter
apanhado por uma canção
de fios úmidos fabricados
pelo retroalimento do desejo

diante do nosso altar
farei minhas preces
de joelhos no chão
ainda que nenhuma
palavra ache espaço
e minha boca cale
mas não pare

sem ponto sem vírgula

na verdade me importa muito o tempo que vamos levar. quanto tempo vamos levar nisso? quer dizer, interessa esse tempo ou interessa o que vou fazer com o meu tempo? se vou direcionar meu tempo somente a você ou se vou conseguir fluir nas mãos de quantas mais. lança-chamas de amor. arrodeio desgraçado para dizer que - pelo amor de deus - há muita coisa pra viver e umas esperas nos braços de tantas cidades e tantos países. eu acho que posso considerar você uma pessoa cujo fogo nunca amorna, muito menos apaga. isso de fazer playlist e estragar umas dezenas de músicas. olha... um absurdo. mas eu fui lá e fiz. minha analista avaliou, riu, se engraçou, mas também anotou mais do que qualquer outra sessão. fiquei lesionada o jogo inteiro, mas joguei até os pênaltis. não indico a ninguém. nunca mais eu faço isso. anote.

onírica memória

estou fazendo memória com a letra do seu nome em quartos no submundinho da consciência. sequer sabia o seu verdadeiro nome até um dia desses. confesso eu fico também meio trêmula meio nervosa de dar de cara com esses olhos miúdos e acontecer os versos de um poema: desejar morar em casa que não é nossa. entrar em luta corporal com o próprio corpo, fazendo arrodeio para não olhar direto e bem fundo nessa direção onde os pratos certamente vão se desequilibrar.

bucha de canhão

hoje cascaviei
uns parafusos lembrando
que você odeia parafusar coisas

prefere ligar os pontos
de jeitos menos calculados
como arredondar pontas de facas
em lascas de madeira

filmei, fotografei
os detalhes
as buchas 
artifícios

mãos silenciosas 
expondo mais ou menos
os ângulos viáveis
para alcançar estrondos

marcas

esse negócio de
deixar essa nuvem
nebulosa-trovejante
raio para quedas
não diminui
a vontade
de mor
der

disco

uma playlist
cê não acredita
mas tem uma playlist

tô dizendo
como vou falar 
para a analista

tô assim das ideias
nem sei se tô pronta
mas, gente

quando ficamos prontos
para morar
na casa dos olhos?